Em Louvor aos Increntes

[Artigo que publiquei originalmente em 9/8/14 no meu blog Philosophical Space, no seguinte endereço/URL: https://akstonlounge.wordpress.com/2014/08/09/em-louvor-aos-increntes/%5D

A língua inglesa muitas vezes tem mais recursos do que a nossa.

Em Inglês é possível designar o ato de crer (em alguma coisa) com o verbo “believe (that)”. É possível designar o ato de descrer (em alguma coisa) com o verbo “disbelieve” (that). Descrer que x (onde x é uma proposição ou um enunciado qualquer) é equivalente a crer que x é falso, ou a crer que não-x é verdadeiro.

Mas o que acontece se, em relação a x, eu nem creio nem descreio – mas opto por suspender meu julgamento, por não ter opinião a respeito, por esperar que fique mais claro se há evidência confiável em relação a x, e se ela é preponderantemente favorável ou contrária?

Em Português não é fácil expressar esse ato – ou melhor, esse estado. (Interessante: “crer” e “descrer” parecem designar atos; “não crer”, ou “increr”, parece designar um estado…). Em Inglês, embora incomum, é possível dizer “unbelieve (that)” para designar esse estado. “Unbelieve” parece designar um estado de coisas em que a pessoa nem crê, nem descrê, nem crê que x é verdadeiro, nem crê que x é falso. “Unbelief” difere, portanto, não só de “belief” mas também de “disbelief”. “Não crer” (“increr”) não é a mesma coisa que “descrer” (nem, evidentemente, que “crer”).

Existe vida em outros planetas? Eu increio. A resposta “Eu increio” significaria que eu nem creio nem descreio – eu simplesmente não sei, não tenho opinião firmada a respeito disso, acho que a evidência disponível, no momento, não me justifica optar por uma ou por outra resposta. Nesse caso, suspendo julgamento, deixo de julgar, não tomo partido na questão.

O verbo “increr” é, admitidamente, esquisito em Português – mas a gente fala em “incredulidade”, em estar “incrédulo”. . . Só que o termo “incredulidade” é usado, em geral, com um sentido muito próximo ao que eu daria ao termo “descredulidade”. . .

Diante disso, proponho que cunhemos o termo “increr” (que x), com seus derivados, para designar o estado de alguém que nem crê nem descrê que x – isto é, de alguém que ainda não tem posição firmada sobre se x é verdadeiro ou falso. “Increr” é basicamente equivalente a “ser agnóstico”, a “agnosticar”, diante da questão,

Sempre me causou surpresa o número de crentes no mundo – isto é, o número de pessoas que crê em coisas para as quais não há evidência, ou em relação às quais, se há evidências, as evidências favoráveis e contrárias basicamente se contrabalançam, em relação às quais pareceria mais recomendável suspender o juízo, ser agnóstico, ou, como diria meu “santo padroeiro”, David Hume, adotar um “ceticismo moderado”.

Hume era uma figura admirável. Ele criticava os que eram crentes fáceis, que acreditavam antes que a evidência disponível se mostrasse suficientemente convincente e persuasiva. Mas ele criticava também os céticos radicais, que não acreditavam em nada, que desprezavam os fiapos de evidência que existiam a favor das coisas em que descriam… A posição que ele defendia era a de um ceticismo moderado (“mitigado” era o termo que ele usava). A gente, segundo ele, não deve ser apressado demais – nem para crer, nem para descrer. A gente deve dar tempo ao tempo, esperar para ver como as coisas ficam, verificar cuidadosamente se há evidência, favorável ou contrária, analisar essa evidência, avalia-la para aferir se uma não anula a outra. . .

O ceticismo moderado de Hume é a atitude ponderada dos sábios que não têm muitas certezas, não a atitude apressada dos néscios, sempre prontos a crer ou descrer no ato, sem parar para pensar, para ponderar, para decidir, entre outras coisas, se vale a pena se comprometer com um lado ou com o outro.

Essa vacina humeana pegou em mim muito cedo – e parece ter validade para a vida inteira.

Em São Paulo, 9 de Agosto de 2014, aqui neste meu blog Theological Space, no endereço/URL: https://theologicalspace.wordpress.com/2015/09/08/em-louvor-aos-increntes/

Transcrito também, em São Paulo, 8 de Setembro de 2015, no meu blog Philosophical Space, no endereço/URL: https://akstonlounge.wordpress.com/2014/08/09/em-louvor-aos-increntes/

“Gracias a la Vida” ou “Gracias por la Vida”?

[Já publiquei uma versão deste texto em meu outro blog “Liberal Space” (http://liberal.space)%5D

Gosto muito da canção “Gracias a la Vida”, de Violeta Parra, imortalizada, para nós latinos, na voz de Mercedes Sosa, e, para nós brasileiros, na voz de Elis Regina.

Se estivesse escrevendo em Espanhol teria começado dizendo “A mí me gusta muchísimo la canción…”.

Acho interessante as construções linguísticas, consagradas pela língua ou criadas intencionalmente, porque há sempre algo por detrás dela que não há explicitado.

“A mí me gusta mucho la canción ‘Gracias a la Vida’” a gente expressa, numa ordem mais direta e explícita, dizendo “Gosto muito mesmo da canção Graças à Vida”. Por que será que os hispanofones dizem “A mí me gusta la canción” em vez “gosto da canção”… Por que será que soa mal aos ouvidos dos hermanos dizer “Yo gusto (de) la canción”? Não sou especialista em Espanhol, mas parece-me “Yo tengo mucho gusto en la canción” é aceitável. Não sei…

Preocupa-me mais a letra da canção em si. “Gracias a la vida”. Dou graças à vida? Se estou numa atitude de ação de graças, como, ontem, Dia de Ação de Graças, muitos estiveram, meu primeiro movimento é dizer “Gracias por la vida”. Não dou graças à vida por ter dois olhos. Dou, primeiro, graças por la vida. Mas graças a quem? Já escrevi aqui neste blog e no Facebook, sobre essa questão. Acho possível dizer “Dou graças pela vida” (ou por qualquer outra coisa), sem explicitar a quem. A frase seria equivalente a “Sou muito grato por ter vivido”, ou “Sou muito grato por estar vivo até esta idade” (quando tantos morrem tão mais cedo, por exemplo).

Os cricas — e eles podem ser crentes tentando fustigar um ateu ou podem ser ateus tentando cutucar um crente — sempre irão perguntar: “Mas a quem?” E a resposta mais apropriada me parece: “A quem — ou a que — quer que seja que é responsável por eu ter nascido e estar vivo até agora…”. Mas isso raramente vai ser suficiente. Os cricas sempre querem que a gente explicite.

A gente poderia tentar sair pela tangente e dizer “A Deus — considerando Deus a força ou o poder que nos trouxe à vida e que a sustém, e que, quando deixa de a suster, nós morremos”. Deus, afinal, na tradição cristã, é isso, não é? Pelo menos isso. Essa seria uma concepção minimalista — vale dizer, liberal — de Deus: a força ou o poder responsável por nos trazer à vida, ou nos dar a vida, e por sustê-la, por sustenta-la, por mantê-la (por um tempo limitado). Se nossa vida é boa, damos graças por ela, especialmente se ela nos dura bastante. Se nossa vida é ruim, em vez de dar graças, esperamos que ela nos seja abreviada.

Nossa tendência é hipostatizar e antropomorfizar essa força ou esse poder, humaniza-lo, faze-lo como nós, transforma-lo em nossa imagem e semelhança, para que possamos falar com ele, pedir-lhe que nos faça feliz, dar-lhe graças quando assim nos faz, pedir-lhe saúde quando estamos doentes, rogar-lhe que nos prolongue a felicidade e a vida sem a qual a felicidade desapareceria . . .

Mas a canção de Violeta Parra opta por não enfrentar essas questões difíceis. Nela se dá graças à vida, hipostatizando-a, antropomorfizando-a, personalizando-a, como se fosse ela, a vida, que nos deu dois olhos, dois ouvidos, para não falar no implausível alfabeto (este, claramente, uma criação humana). E a vida? Quem nô-la deu e a sustenta?

Eu sou grato a quem, ou a o que, fez isso (deu-me a vida) e faz isso (e a sustenta) — mesmo que não seja arrogante o suficiente para presumir que possa descreve-lo. Para mim, ter o sentimento de gratidão pela vida é mais importante do que pretender ser “amigo de Deus”, conhecer-lhe todos os desígnios e, o que é mais arrogante ainda, influencia-los, falando-lhe ao ouvido, para que ele os altere, sempre em nosso favor.

Transcrito aqui em São Paulo, 8 de Setembro de 2015

Originalmente publicado em Liberal Space em Salto, 28 de Novembro de 2014, dia em que fez quatro anos que a Paloma e eu nos tornamos membros da Catedral Evangélica, em ambos os casos por arrolamento, a nosso pedido — e um dia depois do Dia de Ação de Graças de 2014.

Lendo Karen Armstrong, The Case for God

 Karen Armstrong é uma autora que vale a pena ler. Ex-freira, ela tem uma maturidade e uma compreensão da religião (não só cristã) que é difícil de encontrar. E escreve fácil e gostoso, para o leigo — a pessoa inteligente que não é teóloga mas se interessa pelas questões que a religião procura responder. Como já disse em algum lugar, citando Larry King em uma resposta dada a Billy Graham, as questões que a religião levanta e coloca são fundamentais. O duro é aceitar a maioria das respostas que são dadas a elas.

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Os fundamentalistas cristãos e os chamados novos ateus (Richard Dawkins, Christopher Hitchens, Sam Harris) são dois lados de uma mesma moeda, afirma Karen Armstrong em The Case for God (Em Defesa de Deus). Aquilo que uns afirmam, os outros negam.

Diz a lógica que os dois não podem estar certos. Se um está certo, o outro está errado. Isso não quer dizer que, se um está errado, o outro está certo. Karen Armstrong, por exemplo, defende a tese de que os dois estão errados. Redondamente errados.

Os fundamentalistas estão errados, afirma ela na Introdução ao livro, ao presumir que sabem o que (ou quem) Deus é: um ser supremo, criador do universo, onisciente, onipotente, onibenevolente, que se preocupa conosco, cuja vontade nós podemos conhecer e influenciar…

Na tradição cristã não-fundamentalista, afirma ela, e em várias outras tradições religiosas, Deus é o nome que se dá ao transcendente, ao que está além daquilo que podemos conhecer e descrever – e certamente influenciar. Nessa tradição é impossível se referir a ele como um “ser”, ainda que o supremo, ao lado de outros… É impossível descrevê-lo como “alguém” que tudo sabe, tudo pode, e é totalmente bom. É uma ilusão, diz ela, presumir que “ele” tem sentimentos, que tem vontade. E é o cúmulo da arrogância imaginar que nós sabemos qual é a sua vontade e, pior ainda, que podemos influencia-la através de nossas preces e orações.

Se Deus é isso, afirma Karen Armstrong, os ateus, novos e velhos, estão corretos em negar que ele existe.

Mas, continua ela, os ateus, como os fundamentalistas cristãos, estão errados em imaginar que Deus seja isso… Na verdade, uns e outros estão totalmente errados em imaginar que possam saber o que (ou quem) Deus seja…

Ao tentar falar “dele”, nós o antropomorfizamos, usamos linguagem criada para falar dos homens, e, assim, caímos no erro da idolatria. Falamos sobre nós, pensando falar sobre “ele”. Os fundamentalistas protestantes criticam os católicos por se fazerem imagens, ícones, ídolos de Deus, que o representariam visualmente. Mas, ao tentar falar sobre Deus, ao presumir que é possível falar com “ele”, influencia-lo, pedir-lhe que sejam poupados disso ou daquilo ou que sejam agraciados com isso ou aquilo, os fundamentalistas protestantes incorrem em erro equivalente ao da idolatria. Criam um deus à sua imagem e semelhança, um deus que aprova as mesmas coisas que eles aprovam e condena as mesmas coisas que eles condenam…

O gênio de Tomás de Aquino o levou a presumir que não podemos falar de Deus de forma direta e literal, mas que é possível falar dele de forma indireta, por analogia: analogia proportionis, analogia proportionalitatis, etc. O doctor angelicus se enganava a si próprio. A linguagem tem limites que não conseguimos ultrapassar.

Se Deus é o que transcende a nossa experiência e o nosso conhecimento, não podemos conhece-lo, descreve-lo, falar dele, menos ainda com ele. Certo estava Ludwig Wittgenstein, quando disse que “em relação àquilo sobre que não se pode falar, devemos ficar silenciosos” (“Wovon man nicht sprechen kann, davon muss man schweigen”). Não poderíamos nem mesmo dizer (como Tomás de Aquino tentou) que “ele” existe – mas que desconhecemos a sua natureza.

Deus, na tradição cristã, é o “totaliter alter”, o “totalmente outro”, o “desconhecido”, que só é confrontado quando chegamos aos limites de nossa experiência e de nosso conhecimento. Ao chegarmos aos limites que nossa finitude nos impõe, confrontamos o que jaz além de nossos limites, tentamos postular o infinito, o ilimitado (seja em conhecimento, seja em poder, seja em bondade).

Não é de surpreender que é enfrentando, no limite, a dor, o sofrimento, o mistério da morte que alguns acreditam ter uma visio beatifica. Ou que, alternativamente, que é alcançando os limites da alegria, do prazer, da experiência estética, ou do mistério da vida, que outros acreditam  alcançar um êxtase quase divino.

Os fundamentalistas, que acreditam que os mistérios foram todos revelados, e os ateus, que acreditam que mistério é apenas um nome para um problema que a ciência ainda não conseguiu solucionar, não chegam perto de entender isso.

Mas, diante disso, como é possível fazer “the case for God”, sair “em defesa de Deus”? Para isso responder a essa pergunta é preciso ler além da Introdução do livro…

[O Rubem Alves uma vez falou que pegamos os livros, os mastigamos, os deglutimos, e o essencial do que eles contêm entra no nosso organismo e passa a fazer parte de nós. É isso resultou da leitura da Introdução do livro de Karen Armstrong. São apenas dez das quatrocentas páginas do livro.]

Escrito tempos atrás, mas transcrito aqui em São Paulo, 8 de Setembro de 2015

A Fé e as Obras

[Este artigo foi originalmente publicado em meu outro blog “Liberal Space” (http://liberal.space) no URL http://liberal.space/2015/09/02/a-fe-e-as-obras/%5D

Um amigo meu no Facebook, Wilson Cavalcanti, católico, transcreveu, em um post, um trecho da Carta de Tiago (capítulo 2, versículos 14-26), me pedindo que, como representante da tradição protestante (em especial da tradição reformada, ou calvinista, ou presbiteriana), me pronunciasse sobre o assunto. Esclareceu que a posição de Tiago lhe parece, como bom católico, bastante razoável.

A passagem que ele cita (apenas para facilitar) é a seguinte:

 A FÉ SE MOSTRA NA PRÁTICA
14 Meus irmãos, que adianta alguém dizer que tem fé, quando não tem as obras? A fé seria capaz de salvá-lo?
15 Imaginai que um irmão ou uma irmã não têm o que vestir e que lhes falta a comida de cada dia;
16 se então algum de vós disser a eles: “Ide em paz, aquecei-vos” e “Comei à vontade”, sem lhes dar o necessário para o corpo, que adianta isso?
17 Assim também a fé: se não se traduz em ações, por si só está morta.
18 Pelo contrário, assim é que se deve dizer: “Tu tens a fé, e eu tenho obras! Mostra-me a tua fé sem as obras, que eu te mostrarei a minha fé a partir de minhas obras!
19 Tu crês que há um só Deus? Fazes bem! Mas também os demônios crêem isso, e estremecem de medo.
20 Queres então saber, homem fútil, como a fé que não se traduz em obras é vã?
21 Se o nosso pai Abraão foi declarado justo, será que não foi por causa de suas obras, a ponto de oferecer seu filho Isaac sobre o altar?
22 Como estás vendo, a fé concorreu para as obras, e as obras completam a fé.
23 Foi assim que se cumpriu a Escritura que diz: ‘Abraão teve fé em Deus, e isto lhe foi levado em conta de justiça’, e ele foi chamado amigo de Deus”.
24 Podeis ver, pois, que alguém é justificado com base naquilo que faz e não simplesmente pela fé.
25 Não foi a prostituta Raab, da mesma forma, considerada justa em virtude de sua ação, quando hospedou os que vinham reconhecer a região e os fez regressar por outro caminho?
26 Assim como o corpo sem o espírito é morto, assim também a fé, sem as obras, é morta.

Abaixo, o que comentei… A resposta ficou tão grande que o Facebook a refugou. Por isso a transcrevo aqui, onde pode ajudar mais gente.

Caro Wilson Cavalcanti…

Você está me convocando para me pronunciar sobre um tema controvertido, em que a Igreja Católica e as principais Igrejas Protestantes em geral diferem em alguns aspectos considerados (por elas mesmas) importantes.

Vou me pronunciar como historiador da doutrina, como historiador do pensamento cristão, sem me posicionar pessoalmente em relação às questões envolvidas…

Nenhum dos lados (católicos e protestantes) nega que o ser humano, pecador, precisa de FÉ em Cristo (na eficácia da morte de Cristo na cruz) para ser considerado (imputado) justo – isto é, para ser justificado (salvo ou redimido).

A controvérsia surge em relação ao papel das OBRAS no contexto da justificação (salvação ou redenção) do ser humano, criando a questão chamada de “a fé e as obras”.

Antes de ir adiante, deixe-me esclarecer que a questão “da fé e das obras” pode ser suscitada em dois contextos.

O primeiro é o mencionado: o contexto das pré-condições para a justificação (salvação ou redenção) do ser humano. Como diz a história relatada em diversos lugares nos três primeiros Evangelhos (de forma não muito coerente): “o que devo fazer para alcançar a vida eterna?” (vide Mateus 19:16 [um moço], Marcos 10:17 [um homem], Lucas 18:18 [certo homem de posição]).

O segundo é o contexto que poderia ser chamado das pós-condições da justificação (salvação ou redenção): o que fazer (ou como viver) depois da justificação (salvação ou redenção), ao longo da vida cristã? Esse contexto é às vezes chamado de o contexto da santificação (em contraposição ao contexto da justificação).

Nesse segundo contexto, nenhum dos dois lados nega que é preciso manter (preservar) a FÉ e exibir boas OBRAS.

A controvérsia, portanto, se situa basicamente em relação ao papel das obras (o da fé ninguém nega) no contexto da justificação (salvação ou redenção).

A Igreja Católica em regra está mais próxima da posição de Tiago (e da posição do próprio Jesus nos Evangelhos – vide as passagens mencionadas), afirmando que, para a justificação (salvação ou redenção) do ser humano, são necessárias as duas coisas: fé E obras. Essa posição parece sensata e correta, especialmente diante do que diz Tiago (e do que diz Jesus nos Evangelhos: “segue os mandamentos, … vende o que tens e dá aos pobres”, e, depois, “vem e segue-me” – esta última exigência parece corresponder à fé; as duas primeiras, às obras).

As Igrejas Protestantes foram muito influenciadas pela tese de Lutero (oriunda em Paulo e defendida, antes de Lutero, por Agostinho, e, depois de Lutero, por Calvino) de que, por causa da queda (do pecado original) de Adão e Eva, a natureza humana ficou tão corrompida (depravada, é o termo que por vezes usam) que o ser humano não consegue fazer absolutamente nada para, por seus próprios méritos, conseguir ser justificado (considerado justo): nem fazer boas obras (seguir os mandamentos, ajudar os pobres, etc.) e, o que é mais surpreendente, nem mesmo ter fé. A sua justificação se dá exclusivamente por decisão e pela ação de Deus – é um ato unilateral da graça divina. A doutrina protestante (de boa parte deles) é da justificação exclusivamente pela graça divina (sola gratia) – embora às vezes se diga que seja “justificação pela fé” (sola fide), algo que comentarei na sequencia. (Como é que pode ser “sola gratia” e ao mesmo tempo “sola fide” é um problema sério – a menos que seja “só” pelas duas coisas).

Nesse contexto surge outro problema sério: se a justificação se dá exclusivamente por decisão e pela ação divina, sem participação humana, por que alguns são justificados (salvos ou redimidos) e outros não? A resposta protestante é complicada e os principais reformadores, Lutero e Calvino, diferem um pouco um do outro, em termos de ênfase e sensibilidade. Mas de forma resumida a resposta protestante é a seguinte:

  1. Todos os seres humanos são pecadores (pela ação de Adão e Eva, cuja culpa é transmitida aos seus descendentes – doutrina do pecado original);
  2. O pecado original contaminou de tal maneira o ser humano que sua natureza ficou totalmente corrompida, tornando-o absolutamente incapaz de obter, por seus próprios méritos, a sua justificação (salvação ou redenção);
  3. Assim, todos os seres humanos merecem a condenação eterna (em outras palavras, merecem padecer no inferno para todos os tempos – a chamada doutrina das “penas eternas”);
  4. No entanto, Deus, em sua infinita soberania, e em decorrência de sua perfeita bondade (misericórdia, etc.), decidiu (escolheu, elegeu) salvar alguns seres humanos dessa agonia eterna e enviou seu filho para morrer na cruz, e, por sua morte, expiar os pecados dos escolhidos ou eleitos, justificando-os (salvando-os, redimindo-os) e dando-lhes, por assim dizer, um novo começo, um novo nascimento, uma nova vida.

É isso. Fim da história. É essa a doutrina da justificação EXCLUSIVAMENTE PELA GRAÇA (sola gratia).

Há vários problemas evidentes nessa doutrina – o maior deles sendo a aparente injustiça, da parte de Deus, de escolher e eleger apenas alguns para se beneficiar da morte sacrificial de seu filho. Por que não todos? (Os calvinistas mais radicais afirmam que Deus escolheu (elegeu) e predestinou alguns para a salvação e outros para a perdição eterna – esta a chamada doutrina da “dupla predestinação”, que tem causado tanta celeuma entre protestantes, em geral, e presbiterianos, em particular).

Aqui entram algumas tentativas de amenizar a crueza da doutrina da justificação pela graça – acrescentando a dimensão “fé”. Nessa versão amenizada, Deus enviou seu filho para, pela sua morte sacrificial, justificar (salvar ou redimir) TODOS os pecadores. Mas, para se beneficiar do sacrifício de Jesus, o ser humano tem de crer (ter fé) em sua eficácia. Assim, a justificação é, sem dúvida, pela graça (sola gratia), mas também  MEDIANTE a fé (sola fide) – há um jogo com as preposições “por” e “mediante”, embora em Latim elas inexistam – usa-se simplesmente o chamado caso Ablativo. Quem tiver fé na eficácia do sacrifício de Jesus é justificado (salvo ou redimido), tem seus pecados expiados (“lavados pelo sangue do Cordeiro” – Vide Apocalipse 7:14). Quem não tiver essa fé, está perdido. A fé se torna, consequentemente, importante – na verdade, essencial. (Muitos calvinistas ortodoxos consideram essa saída uma heresia, chamando essa solução de pelagiana ou arminiana – a primeira uma heresia condenada pela Igreja Católica, lá atrás, a segunda condenada pela Igreja Reformada ou Presbiteriana, no século 17 – Sínodo de Dort, na Holanda, em 1619 – vide http://www.monergismo.com/textos/credos/sinodo_dort_witt.htm e também http://www.mackenzie.br/7057.html).

Parece um bom remendo – ainda que não (pelo menos na aparência) perfeitamente compatível com tudo o que a Bíblia e os reformadores dizem.

[Quando falo em “remendo”, tenho em mente um remendo no sentido lógico, mais do que no sentido cronológico, pois ele já vem de longe, lá das cartas paulinas. Haja vista o que diz Paulo em Efésios: “Pois pela graça sois salvos, por meio da fé.; e isto não vem de vós, é dom de Deus” (2.8).]

Mas aí surge uma outra série de questões: e a decisão de acreditar ou não, de ter fé ou não, é inteiramente do ser humano? Se for, parece que o ser humano tem, afinal, por essa decisão, alguma participação (algum mérito) na sua justificação (salvação ou redenção). Se não for, o problema continua… Por que Deus dá fé a alguns e não a outros?

Alguns reformadores parecem ter defendido a tese de que a fé (crer ou não crer, eis a questão), como decisão unilateral do ser humano, é necessária, mas não configura participação (mérito) em sua justificação (salvação ou redenção). É apenas um ato passivo (parece meio contraditória a noção) de aceitação. A justificação (salvação ou redenção) continua ação (obra) exclusiva de Deus. Essa posição é por vezes chamada de monergista (ergo – ação; mono – de um só, a saber, Deus). (Os mais radicais dos calvinistas, monergistas até a medula, afirmam que mesmo a fé é um dom de Deus e que, quando Deus, pela sua graça, dá esse dom de fé a alguém, este alguém não tem como recusa-lo, não tem como resistir a Deus – esta a doutrina da “irresistibilidade da graça”; e, aceitando o dom da fé, como não teria alternativa, também não tem, depois, a possibilidade de abrir mão dele – a doutrina da “perseverança [inevitável] dos santos”. Complicado…).

Outros cederam um pouco e admitiram que a doutrina de que o pecado original produziu a total corrupção (depravação) da natureza humana era exagerada, e admitiram que o arbítrio humano continuou livre para aceitar ou rejeitar o dom (gratuito) de Deus e que essa aceitação ou rejeição configura uma participação, ainda que pequena, do ser humano em sua própria justificação (salvação ou redenção). Essa posição é por vezes chamada de sinergista (ergo – ação; sim – com, em grego), pois envolveria um certo nível de cooperação entre Deus e o ser humano – embora a participação deste seja bastante minoritária, embora, segundo os sinergistas, inegável). Assim, a fé é uma realização (ou obra) humana – donde a justificação vem pela graça, mediante a fé.

(Vide na Internet várias discussões dessa controvérsia, entre elas a seguinte, para selecionar apenas uma, que não é objetiva, mas partidária: http://textosdeteologiaefilosofia.blogspot.com.br/2013/02/monergismo-versus-sinergismo-por-norman.html).

Essa explicação toda não esclarece, porém, a questão original. OK, a fé pode ser vista como uma obra, mas e as chamadas “boas obras”, propriamente ditas, o cumprir os mandamentos, o ajudar os pobres, os órfãos, as viúvas, etc. Como ficam? São necessárias para a justificação (salvação ou redenção)? Para os protestantes, em geral, a resposta é, claramente, não. MAS, segundo eles, essas boas obras seguem, naturalmente, a justificação (salvação ou redenção), decorrem dela, pois esta “regenera” o ser humano, faz com que ele “nasça de novo”, dá-lhe uma nova natureza, etc., que, embora não o torne perfeito, sem pecado, o capacita (sempre com a assistência indispensável do Espírito Santo) a viver uma vida santificada, que implica o cumprimento dos mandamentos, a disposição de ajudar os outros, etc.

É isso. Tentei ser o mais claro possível navegando por uma questão complicada. Provavelmente vai haver algum protestante (possivelmente da variedade “evangélica”) que discorde de minha interpretação da questão, mas, se isso ocorrer, estou disposto a defender minha interpretação dessa delicada questão.

Em São Paulo, 2 de Setembro de 2015

Eduardo Chaves

A Teologia Liberal

[Transcrito de meu outro blog “Liberal Space” (http://liberal.space) no URL http://liberal.space/2015/09/07/a-teologia-liberal/%5D

Um dia desses (17/8/2015) publiquei aqui o post “Elucubrações Perigosas” (http://liberal.space/2015/08/17/elucubracoes-perigosas/). Recebi uma resposta interessante. Quando a recebi (hoje) já havia postado no meu perfil no Facebook o artigo abaixo (o que fiz em 5/9/2015 ao meio-dia e vinte minutos). O post / artigo abaixo sugere, de certo modo, uma resposta a algumas das questões que levantei no artigo anterior. Por isso o publico aqui também.

Estou pensando em colocar meus posts teológicos em outro blog. Mas ainda não decidi.

[8/9/2015: Já criei o outro blog: “Theological Space” no URL http://theological.space%5D

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Uma das principais contribuições da Teologia Liberal do fim do século 19 e começo do século 20, iniciada por Friedrich Schleiermacher, foi uma verdadeira Revolução Copernicana — independentemente de se aceitar ou não a tese.

Segundo a Teologia Liberal, a religião, em geral, e o Judaísmo e o Cristianismo, em particular, não representam, na realidade, movimentos de Deus na direção do homem (revelação, redenção, etc.), mas, sim, movimentos na direção oposta, do homem em busca de Deus, daquele que é finito (em poder, em conhecimento, em bondade) em busca do infinito (em poder, em conhecimento, em bondade). A religião, entre outras palavras, não é a busca do homem por parte de Deus — mas a busca de Deus (ou de um deus) por parte do homem.

A religião, por conseguinte, não é a erupção do sobrenatural na ordem natural, mas a tentativa da ordem natural de transcender a si própria e irromper naquilo que lhe sobrejaz — que seria o sobrenatural. É a busca que faz o imanente de uma ordem transcendente que explique o que aqui acontece e lhe dê sentido.

É por isso que Rubem Alves (O que é Religião?) e outros definem a religião (sagrada ou secular) como uma busca de sentido para a vida.

Consequentemente, nessa visão, os chamados livros sagrados, entre os quais a Bíblia, não contêm a palavra de Deus, mas, sim, a palavra humana que relata essa busca do homem por Deus. Como palavra humana, nem sequer se cogita que possam ser inerrantes ou infalíveis.

Aí está o maior desafio que a Teologia Liberal colocou à Teologia Tradicional. Ele não estava no apontar erros ou incoerências particulares de fato ou de valor na Bíblia (embora isso fosse feito), mas, sim, no esforço de dessupernaturaliza-la, de desdiviniza-la — naturalizando-a e humanizando-a.

Como é que a Teologia Tradicional enfrenta um desafio desses?

Em São Paulo, 7 de Setembro de 2015
(Dia em que completo 72 anos de vida)

Duas Crises Hermenêuticas

[Artigo originalmente publicado em meu outro blog “Liberal Space” (http://liberal.space) no URL http://liberal.space/2014/05/25/duas-crises-hermeneuticas/%5D

Sugiro que o leitor veja, primeiro, a parte inicial desde vídeo — feito em dois momentos:

Ele foi gravado ontem, e editado hoje, pelo meu querido sobrinho Vitor Chaves de Souza, talentoso teólogo, autor e fotógrafo. O vídeo é um teste visando à feitura de uma prolongada entrevista comigo para registrar em vídeo algumas ideias minhas.

A primeira pergunta foi sobre teologia… Como se deu a minha evolução teológica, por aí. Não foi uma entrevista planejada nem ensaiada. Tive literalmente de improvisar. Este texto foi escrito depois da entrevista, tendo-a como base. Não vice-versa.

1. Preâmbulo

Disse a ele que nasci num lar cristão – mais especificamente, protestante e presbiteriano. Meu pai era pastor, conservador e tradicional. Fundamentalista, mesmo, dir-se-ia hoje.

Nascendo num lar assim, cresci com uma visão conservadora e tradicional do cristianismo, do presbiterianismo, da Bíblia. Ao concluir o ginásio, e tentar fazer o Curso Científico (uma das variantes, a voltada para uma carreira na área científica, do Ensino Médio de então), descobri que não era por ali que deveria caminhar. Naquele ano de 1960 decidi fazer minha Profissão de Fé na Igreja Presbiteriana (não era professo até então) e ir para o Instituto José Manuel da Conceição fazer o Curso Clássico (a variante humanística do Ensino Médio de então), como pré-candidato ao ministério evangélico.

Fiz o Clássico no Instituto JMC de 1961 a 1963. E educação em sala de aula era boa, mas convencional, tradicional e conservadora. Mas a educação melhor que tivemos era informal, fora da sala de aula. O assunto “vida da escola” vs “escola da vida” foi um dos temas de meu discurso de formatura em 1963. E já escrevi sobre a educação recebida naquela escola num post com o título “O JMC nos deu Educação”. Isso significa que, embora muito bem preparado academicamente, saí do JMC em 1963 ainda um crente presbiteriano conservador.

2. A Primeira Crise

O choque veio no Seminário Presbiteriano de Campinas, a partir de 1964. O currículo, a metodologia de ensino e o corpo docente do Seminário eram conservadores. Mas os alunos veteranos que encontrei lá, não. Então, me vi, num dilema. De um lado, minha formação tradicional em casa e no JMC, muito bem reforçada pelo corpo docente do Seminário. De outro lado, a pressão dos pares (peer pressure) – reforçada pela curiosidade natural de descobrir o novo, de explorar uma nova forma de ver as coisas. Novamente a “vida da escola” vs “a escola da vida”. E novamente a escola da vida saiu ganhando.

Meu primeiro ano no Seminário foi dedicado basicamente a observar, ler, conversar, explorar… Mas fiquei meio fechado em mim mesmo. Era bom aluno (na verdade, tanto no JMC como no Seminário e, depois, em Pittsburgh, sempre fiquei com a melhor média de minha turma). Mas não era muito ousado, muito menos precipitado.

No segundo ano no Seminário, agora como veterano, comecei a “botar minhas manguinhas de fora”. Minhas leituras, neste ano, foram ousadas (do ponto de vista conservador). Li o bispo J. A. T. Robinson (Honest to God), Joseph Scheffler (Situation Ethics), Harvey Cox (The Secular City), e, principalmente Rudolf Bultmann (Neues Testament und Mythologie, Theologie des Neuen Testaments, etc.). Cheguei a traduzir o artigo de Bultmann que dá título à coletânea para o Português – e publica-la como apostila pelo Centro Acadêmico – para escândalo dos professores mais conservadores.

Essas leituras me levaram à minha primeira crise teológica. Foi, como a defini para o Vítor, uma crise hermenêutica. Até ali sempre havia interpretado a Bíblia de maneira literal – e não era suficiente crítico para duvidar da inerrância, literalmente interpretada. Minhas leituras no segundo ano no Seminário começaram a me convencer, porém, que era muito difícil ser um cidadão do Século XX, herdeiro do Iluminismo, na Revolução Científica, e da Revolução Industrial, e aceitar literalmente algumas coisas que pareciam evidentes na Bíblia. Primeiro, que o homem, essa criatura complexa e fascinante que somos, surgiu na face da Terra por transformação, mediante um sopro divino, de um boneco de barro esculturado por ele – e que a mulher, mais fascinante ainda, é resultado de uma reengenharia biológica a partir de uma costela. Segundo, que a cosmologia do Novo Testamento parecesse se limitar à crença de que a Terra era basicamente plana e tinha, acima dela, o Céu, e, embaixo, o Inferno, e que pessoas subiam (ou ascendiam ou eram assuntas) ao Céu (até mesmo ao sétimo), desciam ao Inferno, etc.. Terceiro, que doenças eram fruto, em muitos casos, de possessão da pessoa por demônios e espíritos maus, que sua cura precisava ser feita por exorcismos e milagres, que pessoas ressuscitavam depois de estarem mortas por vários dias, etc.

Quando se chega à conclusão que é muito difícil aceitar essas teses (e outras), que parecem evidentes na interpretação literalista da Bíblia, só há (a meu ver) duas opções. Primeira: rejeitar o Cristianismo, por considerar a Bíblia um livro cheio de mitos e histórias implausíveis. Segunda: abandonar a interpretação literalista da Bíblia e encontrar algum sentido mais profundo (sensus plenior) nas histórias e narrativas bíblicas que as tornasse mais aceitáveis. Não estava preparado para a primeira opção. Escolhi, portanto, a segunda. Tornei-me um bultmanniano e interpretei os evangelhos e principalmente as cartas paulinas num sentido existencialista (que Bultmann tomou emprestado de Heidegger).

No meu terceiro ano a crise assumiu contornos diferentes. Deixou de ser mera crise de fé e se tornou oposição ativa ao fato de que os professores do Seminário se recusavam a discutir as questões que me afligiam em sala de aula e que eu tivesse que, literalmente, me educar sozinho lendo, refletindo, interagindo com meus colegas. Como se vê, minha visão pedagógica então era retrógrada. Hoje acho que a educação que tive no Seminário, que independia em grande medida das aulas, foi das melhores. Mas isso acabou levando à minha expulsão do Seminário, por ousar criticar os professores e a instituição.

Fiquei só o primeiro semestre de 1966 no Seminário de Campinas, porque a Igreja Presbiteriana do Brasil deu uma guinada política à direita e o Seminário implodiu. Trinta e nove alunos, entre os quais eu, saímos de lá. Uns desistiram de estudar Teologia e foram fazer outra coisa. Outros, como eu, buscaram abrigo em Seminários de outras denominações protestantes: a Igreja Presbiteriana Independente do Brasil e a Igreja Metodista do Brasil, principalmente. Alguns foram estudar fora do Brasil, no Seminário Unido de Buenos Aires, especialmente. E eu fui, em 1967, para a Faculdade de Teologia da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, em São Leopoldo, RS. Lá Bultmann era muito bem aceito. Até certo ponto, Bultmann era lá a ortodoxia. Senti-me em casa. Mas era uma ortodoxia com a qual eu então me sentia confortável.

Estudei apenas um semestre em São Leopoldo, porém. No segundo semestre, fui para os Estados Unidos, para o Pittsburgh Theological Seminary, em Pittsburgh, PA, porque ganhei uma bolsa da instituição. Fui aceito para fazer o Mestrado, embora não tivesse concluído a Graduação. Na verdade, recebi um diploma de Bacharelado do Seminário de Pittsburgh no processo. Fiquei três anos fazendo o Mestrado, de Setembro de 1967 a Maio de 1970.

Ao longo desses três anos atravessei uma segunda crise, também hermenêutica.

3. A Segunda Crise

Como cheguei ao Seminário de Pittsburgh com uma formação razoavelmente boa nas línguas bíblicas (Hebraico e Grego) e com uma bagagem razoável de informações sobre a teologia do Novo Testamento e a teologia sistemática protestante então contemporânea (além de Bultmann, Karl Barth, Emil Brunner, Paul Tillich, etc.) dediquei-me a estudar a história das doutrinas. Interessei-me bastante por Tomás de Aquino, autor que nunca havia lido no Brasil por ser considerado tipicamente católico, o racionalismo do Iluminismo (em especial Hume e Kant), as tendências fideístas (anti-racionalistas), as tendências pietistas, o chamado liberalismo teológico do Século XIX, etc. E continuei ler Teologia Sistemática mais contemporânea.

Interessou-me em especial a controvérsia sobre as diversas faces de Jesus resultante do livro The Quest for the Historical Jesus (Von Reimarus zu Wrede), de Albert Schweitzer (1906), que é uma história crítica das diversas “Vidas de Jesus” escritas ao longo do Século 19.

Ao ler Tomás de Aquino, com sua teologia influenciada pelo Aristotelismo, e outras teologias influenciadas pelo Existencialismo, pela Fenomenologia, depois teologias influenciadas pelo Marxismo, e ao ler Schweitzer, comecei a me perguntar até que ponto era permissível interpretar não-literalmente a Bíblia… Os grandes e hábeis intérpretes pareciam ser capazes de extrair da Bíblia, a partir de doutrinas que, a partir uma interpretação literalista, pareciam implausíveis, as mais fantásticas interpretações. No processo o texto original era “torcido e espremido” de modo a dizer aquilo que o intérprete estava interessado e disposto a extrair dele. Comecei a me perguntar até que ponto é possível interpretar não-literalmente uma doutrina sem que ela se torne uma outra doutrina? Alguns anos depois escrevi um artigo sobre esse tema. O artigo publicado em 1990 sob o título “How Far Can a Doctrine Change Before Becoming Something Else?” está, agora, republicado aqui neste blog, no seguinte endereço:

http://liberalspace.net/2014/05/26/how-far-can-a-doctrine-change-before-becoming-something-else/

Outro desafio: se vou aceitar uma teologia existencialista ou marxista, porque um teólogo hábil conseguiu mostrar que a Bíblia, corretamente (i.e., não-literalmente) interpretada contém a história de um drama existencial, ou a história da redenção política da humanidade, por que não posso ser simplesmente existencialista ou marxista, em vez de um existencialista cristão ou um marxista cristão?

Minha segunda crise hermenêutica me trouxe ao seguinte dilema: interpretar a Bíblia de forma literalista é inaceitável porque essa interpretação conflita com importantes elementos de minha visão do mundo como pessoal do Século XX; por outro lado, admitir interpretações não-literalistas, com sentidos mais profundos escondidos no texto, parece abrir as portas para todo tipo de interpretação fantasiosa.

Essa segunda crise me fez desistir de ser pastor – embora já estivesse academicamente pronto para ser ordenado e a Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos dificilmente me negasse a ordenação por causa de minhas crises hermenêuticas. Mas não me pareceu honesto.

A partir daquele momento, decidi me dedicar mais à Filosofia do que à Teologia. Quem sabe ela me ajudasse a resolver meus dilemas teológicos? Nunca abandonei o interesse na Teologia, porque continuei acreditando que as questões que a Religião coloca são fascinantes, ainda que as respostas dadas a essas questões deixem muito por desejar.

O meu pensamento teológico evoluiu bastante desde então – mas isto, quem sabe, é história para uma outra entrevista.

Em São Paulo, 25 de Maio de 2014

How Far Can a Doctrine Change Before Becoming Something Else?

[Article original published in my other blog “Liberal Space” (http://liberal.space} no URL http://liberal.space/2014/05/26/how-far-can-a-doctrine-change-before-becoming-something-else/%5D

[In the article “Duas Crises Hermenêuticas” (Two Hermeneutical Crises), published here yesterday, in Portuguese, I made a reference to this article, written originally in English, and up to this time without translation into Portuguese. Since few people had access to it, I decided to publish it here. It was written in 1990 for delivery in the Assembly of World Religions, in Los Angeles, that same year. The Assembly was sponsored by New ERA — New Ecumenical Research Association, an organization belonging to the Unification Church, founded by the Rev. Sun Myung Moon. The article was published in the proceedings of the Assembly. Even though written in the present form only in 1990, previous versions of this article were written beginning in 1970, as an attempt to achieve clarity about the reasons for my loss of religious faith. There are many points of contact and convergence between this article and the article published yesterday. But it clearly adds elements which were not covered in yesterday’s article. This gives me another reason to publish it here. I feel it necessary to underline today that my theological views have not become stationary in the 24 years since this article was written. They are constantly undergoing change. As a result of these changes I have come back to the Presbyterian Church and am now a member of the First Independent Presbyterian Church of São Paulo, SP, here in Brazil. I will eventually try to give an account of the changes my theological views have undergone in this period — especially since 2008. Eduardo Chaves.]

                                                                         o O o

John of Trier Eck: “Martin, how can you assume that you are the only one to understand the sense of Scripture? Would you put your judgment above that of so many famous men and claim that you know more than they all? You have no right to call into question the most holy orthodox faith, instituted by Christ the perfect lawgiver, proclaimed throughout the world by the apostles, sealed by the red blood of the martyrs, confirmed by the sacred councils, defined by the Church in which all our fathers believed until death and gave to us as an inheritance. … I ask you, Martin — answer candidly and without horns — do you or do you not repudiate your books and the errors which they contain?”

Martin Luther: “Since then Your Majesty and your lordships desire a simple reply, I will answer without horns and without teeth. Unless I am convicted by Scripture and plain reason — I do not accept the authority of popes and councils, for they have contradicted each other — my conscience is captive to the Word of God. I cannot and I will not recant anything, for to go against conscience is neither right nor safe. Here I stand, I cannot do otherwise. God help me. Amen” (1).

                                                                         o O o

I will try to wrestle with a serious theological problem from a very personal viewpoint.

The theoretical issue contained in the title of this paper will be given an autobiographical reply in the form of an answer to the following question: To what extent do I still have the right to call myself a Protestant? (2)

I certainly can claim to have a Protestant background: I was born into a Protestant home, my father was (still is) a Presbyterian minister, I accepted, for some time, the main tenets of one of the Protestant denominations, I have a degree in theology from a Protestant Seminary, etc. I cannot see how my Protestant background can be questioned.

If I had converted to, say, Roman Catholicism, I could well see that I no longer had the right to call myself a Protestant. However, that did not happen. Today, I am not affiliated with any religious body, Protestant or otherwise. I do not regularly attend any church. I cannot say that I maintain some form of private piety. From an intellectual point of view, I became skeptical of the claims not only of Protestantism, but also of every other religious body that I know, and consider myself an agnostic, as far as religious and theological doctrines are concerned.

And yet, I feel that Protestantism is not something you put on or shed at will and I think that, in a sense, I still have the right to call myself a Protestant (although, let me admit, I do not normally do so, except, perhaps, when filling out the forms for a Conference such as this).

Let me clarify what I mean.

I will not try to define (as many have done) the essence of Protestantism. I will only describe what remained in my mind as characteristic of Protestantism.

First, Protestantism involves the right to search for truth and to not accept traditional ideas as to what truth is or as to where it should be found;

Second, Protestantism, as the name implies, and as history somehow corroborates, involves the right to protest when this search for truth becomes a firm conviction that one has definitively found it and that it is not compatible with the prevailing “ortho-doxy” (**);

Third, Protestantism involves the right to stand by what one believes to be true, even at the cost of having to leave, or being forced to abandon, the religious group to which one belongs (“Hier stehe Ich, Ich kann nicht anders”).

I do not pretend that I am exhausting the meaning of Protestantism, not even that I am giving an accurate description of it. What I am doing is offering a set of norms or criteria as to what being Protestant means to me. Being Protestant, in this sense, means, basically, that one has some rights over against the religious body to which one, by chance or decision, is committed, including the right to leave it and, in a sense, go on belonging to it, just because one had the courage to protest by leaving.

As I mentioned, I was born into a Protestant home of a very conservative and orthodox Presbyterian minister, a convert from Catholicism. Living in a country which, at the time I was born, was about 95% Roman Catholic, my father hesitated considerably to send me to public school — which, in his view, was totally controlled by the predominant religious view. I remember quite clearly that I had (by my father’s determination) to leave the classroom whenever there was religious instruction (which even the public schools were compelled to offer but which was optional to students, since, at that time, it was given almost exclusively by Roman Catholics). Since the public schools were dominated by Catholics and Protestants did not have their own schools where I was growing up, I was taught to read at home, from the Bible. From my early days I was instructed to read the Bible and find out by myself how the Roman Catholics were wrong…

But the Roman Catholics were not the only object of attack by my father. Fellow Protestants of other denominations would also regularly receive their due, especially the Pentecostals (which were beginning to grow in Brazil, as in the whole of Latin America), the Baptists (because of baptism by immersion), Seventh-Day Adventists (because of the Sabbath), Methodists and Anglicans (because they had bishops and so resembled too much the Catholics…), etc. Voodooism, then, was one hundred per cent devilish. Doctrinal controversy was not only allowed: it was stimulated. My father wrote articles and pamphlets against every religious group which was not his own — and even some subgroups within his particular religious denomination eventually received their share.

Of course, my father believed that controversy was beneficial to his cause because he was firmly convinced that the only possible outcome of controversy was persuading the others that they were wrong — unless, of course, they were already so firm in the hands of the Evil One as to be practically beyond the stage where they could be reached by reason and argument. It never occurred to him that he could be wrong.

This was the environment into which I was born. In this environment, the doctrinal elements of religion were most important, since truth mattered more than anything. Doctrine was more important than ethics and ritual. Lapses in ethical behavior and in religious practice could be forgiven, but not willful persistence in heresy. Reason was also important, for it was with its help that one’s convictions were promoted and defended. I learned to read in English with the help of an old book of Christian Apologetics.

In this context, I did not have any major intellectual difficulties with remaining Protestant and Presbyterian (except for some doubts as to the doctrine of Predestination) — until, of course, I went to Seminary, to study theology. The process which was supposed to strengthen my faith ended up destroying it — as is frequently the case. In Seminary I came in contact with Karl Barth, who did not accept the inerrancy of the Bible and the Virgin Birth of Christ, with Rudolf Bultmann, who went further and considered a lot of the New Testament just plain myth, and with a number of minor theological stars, whose only consensus seemed to be that traditional Christianity was no longer acceptable. In Seminary, I became quite interested in history and in philosophy. In history, because of my interest to find out how much of the Bible is historically reliable, how historical is the Jesus of the Gospels, etc. In philosophy, because I wanted to sharpen my mastery of logic and epistemology, in order to better search for truth.

During all of this period, my conviction that truth, reason and history mattered only increased. Even though both Barth and Bultmann did have considerable impact on the development of my present views, I could not accept the Barthian claim that reason was unable to have a say in religious matter. Nor could I accept the Bultmannian views that the Jesus of History was not relevant for faith and that the resurrection need not have historically happened. In all of these issues, I was squarely on the side of the traditional Protestantism represented by my father. I agreed with Paul that if Christ did not raise from the dead, then our faith is in vain (I Corinthians 15:14). And, for me, resurrection from the dead was resurrection from the dead — and not some attenuated form of daily resurrection in the preaching of the church, as some theologians seemed to imply.

My main theological interests in Seminary were in the so-called natural theology (the issue concerning its possibility, the arguments for the existence of God, the relation of reason and revelation, the question of miracles, including the issue of the resurrection, etc.).

My main philosophical interests, which had always been logic and epistemology, became centered in Analytical Philosophy, by then very much involved, under the sharp leadership of Antony Flew, in the analysis of religious discourse. Here also, even though I benefited tremendously from my studies, I could not agree with those philosophers who claimed that religious discourse lacked “cognitive significance”, and that, consequently, the categories of truth or falsehood could not apply to it. Richard B. Braithwaite, for instance, claimed, in his “An Empiricist’s View of the Nature of Religious Belief” (3), that religious language does not make claims which are either true or false, but is much more like literature (about which no one asks whether it is true or false). For me there was no doubt that when most religious persons (philosophers, perhaps, excluded) say that God exists and that he is perfectly good, omnipotent and omniscient, they mean these assertions to be true — literally true, as a matter of fact.

The net result of all these theological, philosophical and historical concerns was that it seemed to me profoundly dishonest what many theologians were doing, especially Bultmann and Paul Tillich: they were denying the truth of traditional doctrines, but reinterpreting them in such a way as to make them acceptable to “modern man” — whatever this expression meant. “Christian Atheists” appeared declaring that one could be Christian without believing in God — something entirely preposterous to me.

Why could I not accept the reinterpretations of Christianity which were being offered by the “demythologizers” of the Bultmanninan school, by “the Ground-of-Beingers” of the Tillichian school and by the Christian “secularists” and “atheists”, or even by my fellow countrymen with their “Liberation Theology”? The answer is simple: because whatever they proposed as a reinterpretation of Christianity seemed to me to dispense with everything Christianity had been associated with in the past. One does not need Jesus, and not even Paul, to be kind of Christian Existentialist that Bultmann proposes: it suffices being somehow Heideggerian. One does not need most of traditional Christianity to accept the doctrine of God as the Ground of Being. And certainly one does not need to be a Christian to be an atheist or a marxist.

The religious doctrines of traditional Christianity, in these cases, were so drastically reinterpreted that, in my view, they ceased being the same doctrines. They became something else, entirely different. And for this something else, the religious doctrines seemed entirely dispensable.

My main question, then, became: why pour new wine into old vessels? Why not just drink the new wine, or keep it in its contemporary vessels? (4) Why pretend to believe the same thing as most of the faithful, when you no longer do? Why resort to every form of intellectual gymnastics in order to claim that this or that is what the Bible has been saying all along, when a plain reading of the Bible suggests the contrary?

Here my readings of Albert Schweizer’s The Quest of the Historical Jesus (Von Reimarus zu Wrede) (5) bore fruit: given enough ingenuity, one can make the Bible say anything one wishes, one can paint the “historical” Jesus with the colors of one’s preference.

The new theologians prevented me from continuing to accept traditional Christianity, because they convinced me that it was not true. But my respect for truth prevented me from accepting their theologies, which tried to make what they believed to be untrue sound as if it were true — only in another, and “deeper”, sense. This, to me, was only a poor attempt to revive the medieval hermeneutics of the sensus plenior.

The end result of this phase of my religious quest was that I lost my faith and, in a coherent manner, left the Church, and became a secular teacher of philosophy (including philosophy of religion).

Following my understanding of Protestantism, I believe that, in a sense, I was being consistently Protestant even when I left the Protestant church. “Here I stand, I cannot do otherwise”. And even today, I can call myself a Protestant, because I still keep an open mind and I do not allow my present religious unbelief to prevent me from continuing to search for truth in religion. Following the suggestion of my main philosophical mentor, David Hume, I am skeptical even of my skepticism (6). My behavior is (I presume) quite compatible with that of most believers, and I derive great emotional satisfaction from religious rituals. But since I do not believe the doctrines which give support to this behavior and to these rituals, I choose to behave in the way I do and attend religious services whenever I feel like, without identifying myself as a member of the religious institutions which patronize the behavior and the rituals.

As a final observation, I must register, however, that it is far from me to suggest that in order to be truly Protestant one must abandon Protestantism.

                                                                         o O o

(*) Paper presented at the meeting of the Second Assembly of World Religions, Los Angeles, 1990.

(**) The text that was distributed in 1990 had a different wording for this paragraph, that was clearly inadequate. The present wording is more accurate. The original wording was: “Second, Protestantism, as the name implies, and as history somehow corroborates, involves the right to protest when this search for truth becomes a firm conviction that one has definitively found it in some form of “ortho-doxy””;

 NOTES

1. Apud Roland H. Bainton, Here I Stand: A Life of Martin Luther (Mentor Books, New York, 1955, 1963), p.144.

2. This question was already much discussed in print. See, especially, William Warren Bartley, III, “I Call Myself a Protestant”, Harper’s Magazine, May, 1959, reprinted, with parallel articles by Walter Kaufmann, Arthur A. Cohen, and Philip Scharper, in Leo Hamalian & Edmond L. Volpe, eds., Essays of Our Time (McGraw-Hill Book Company, Inc., New York, 1960). Warren W Bartley, III was my doctoral adviser at the University of Pittsburgh (1970-1972).

3. The Eddington Memorial Lecture delivered at the University of Oxford in 1955, reprinted in Ian T. Ramsey, ed., Christian Ethics and Contemporary Philosophy (The Macmillan Co., New York, 1966).

4. Matthew 9:16-17: “And no one puts a piece of unshrunk cloth on an old garment, for the patch tears away from the garment, and a worse tear is made. Neither is new wine put into old wineskins; if it is, the skins burst, and the wine is spilled, and the skins are destroyed; but new wine is put into fresh wineskins, and so both are preserved”. Cp. Mark 2:21-22 and Luke 5:36-38.

5. The Macmillan Co., New York, 1957, translated by W. Montgomery from the original German edition, Von Reimarus zu Wrede, published in 1906.

6. “A true sceptic will be diffident of his philosophical doubts as well as of his philosophical conviction …”. David Hume, A Treatise of Human Nature, Book I, Section VII, edition by L. A. Selby-Bigge (Clarendon Press, Onford, 1888, 1964), p. 273. I wrote my Ph.D. on Hume, under the title David Hume’s Philosophical Critique of Theology and its Significance for the History of Christian Thought (Pittsburgh, 1972).


© Copyright by Eduardo Chaves, 1990

[Transcribed here on May 26, 2014]

Continuando as Elucubrações…

Caro xxx:

[Este artigo foi escrito em resposta a um comentário publicado no post “Elucubrações Perigosas…” (https://theologicalspace.wordpress.com/2015/09/08/elucubracoes-perigosas/)%5D.

Em primeiro lugar, obrigado pela sua resposta. Ela me obriga a pensar (ou repensar) em algumas coisas que deixei de lado no artigo que você comenta.

Peguemos dois autores – Adolf von Harnack e J. Gresham Machen – que, a meu ver, podem ser descritos como o ponto mais alto, respectivamente, do Liberalismo e do Fundamentalismo. Cada um deles escreveu pelo menos um livro importante para as questões que estamos discutindo. No caso de Harnack, O que é o Cristianismo? (Das Wesen des Christentums, em Alemão, e What is Christianity?, em Inglês, publicado em 1900. No caso de Machen, Cristianismo e Liberalismo (Christianity and Liberalism), publicado em 1925. Apenas 25 anos separam o aparecimento desses dois livros.

Harnack defende a tese (exposta em muito mais detalhe em seu Dogmengeschichte (History of Dogma, História do Dogma), em resposta à pergunta no título de seu livro, que Cristianismo é o que Jesus, chamado de Cristo, pregou: uma mensagem acerca da proximidade ou mesmo da chegada do Reino de Deus, que estaria a exigir dos humanos introspecção, arrependimento, mudança de direção, na direção de um viver moral (representado sobremaneira pela Lei Áurea). A morte de Jesus e sua alegada ressurreição não tem nada que ver com essa mensagem: são invenções de Paulo, que caracterizam o que Harnack chama de Catolicismo, não mais de Cristianismo.

Machen, por sua vez, concorda, malgré soi, com Harnack em algumas coisas. Ele defende a tese de que o Cristianismo é uma coisa e o Liberalismo outra. Harnack concordaria plenamente com essa tese – só esclarecendo que “Cristianismo” é o ensinamento básico de Jesus Cristo (o “Jesusismo”) e  substituindo “Liberalismo” por “Catolicismo” (que seria idêntico a “Paulinismo”).

A diferença é que Machen achava (e o mostrou em outro livro, sobre Paulo) que a religião de Paulo não contradizia, nem levava adiante, a religião de Jesus. A justificativa dessa tese é complexa, nem vou tentar resumi-la aqui.

Essas considerações corroboram sua afirmação de que não havia apenas um “Cristianismo Primitivo”, mas vários – ou pelo menos dois, o de Jesus Cristo e o de Paulo de Tarso. Harnack achava esses dois Cristianismos incompatíveis – e, como bom liberal, optou pelo de Jesus Cristo, contra Paulo. Machen, bom teólogo reformado, acha que havia apenas um “Cristianismo Primitivo”: o do Novo Testamento, sendo os pontos de vista de Jesus e os de Paulo compatíveis (ou, pelo menos, compatilizáveis).

Eu, pessoalmente, não estou muito interessado em definir os conceitos / termos “cristão” e “Cristianismo” com precisão. Acho que ninguém, hoje, tem autoridade para fazer uma definição normativa desses conceitos / termos e impor essa definição aos outros (embora a Igreja Católica e os Fundamentalistas protestantes possam achar que ainda tem). Mas o resultado dessa discussão é que aqui temos uma especulação teórica (doutrinal) que desemboca numa definição descritiva desses termos que não produz maiores resultados práticos.

É isso que fazem Harnack e Machen, que se acham no direito de dizer, o primeiro, que seu entendimento do Cristianismo é o único que mantém o Cristianismo como uma alternativa aceitável hoje em dia, o segundo, que o entendimento da essência do Cristianismo Harnack foi tão longe na direção de uma reinterpretação que acabou produzindo uma outra religião – o Cristianismo, na versão de Harnack, não é mais, segundo Machen, Cristianismo – “became something else”.

 Quanto à sua afirmação de que “o núcleo da fé cristã — Jesus — era de certa forma um ‘liberal’”, eu concordo e discordo. Parece-me que Jesus era um judeu não muito ortodoxo. Se isso o torna um liberal, vá lá – mas aplicar-lhe o termo me parece um sério anacronismo. Acho preferível dizer que boa parte dos liberais era “jesusista” (não “paulista”): eles preferiam a pregação de Jesus à de Paulo (chegando a afirmar que Paulo foi o real fundador do Cristianismo “Católico”). Vide Harnack, What is Christianity?

Indo em frente, discordo do seu entendimento de “De(s)mitologização”. Acho que, para Bultmann a expressão quer dizer “descartar” o mito que envolve o núcleo essencial do Cristianismo Primitvo (jesusita e paulista) e desvelar a natureza existencial desse núcleo (kerygma). O termo “mito”, para Bultmann, é bastante elástico, de modo a incluir quase todos os elementos de uma visão pré-científica da realidade: um mundo plano de três andares (Céu, Terra e Inferno), um mundo em que as coisas que acontecem aqui na Terra não se devem a causas naturais mas, sim, à ação de seres sobrenaturais, do mal ou do bem, etc. A tese principal dele é que, ao descartar essa visão de mundo primitiva, não precisamos, necessariamente, descartar a mensagem essencial do Cristianismo Primitivo (especialmente paulino): a visão de que devemos buscar uma nova vida que faça sentido e nos realize (existência autêntica, segundo o espírito), abandonando a nossa existência inautêntica (segundo a carne).

Por fim, não creio que haja um método de interepretação da Bíblia que possa ser chamado de “conservador” que se contraponha a um método de interpretação “modernista”. Acho que há o método de interpretação literal, que pode e deve ser aplicado quando “cabível” – e um método de interpretação não-literal (simbólico, alegórico, etc.) que pode ser aplicado quando o sentido literal parece “descabido”. Tanto conservadores como liberais fazem uso dos dois métodos em diferentes circunstâncias.

O problema surge quando o resultado da aplicação da interpretação literal produz uma leitura “descabida” (em algum contexto). Para os liberais, uma leitura literal de qualquer relato que implica (por exemplo, o reconhecimento de um milagre ou simplesmente do sobrenatural é inaceitável – por isso, eles ou rejeitam o relato ou se propõem a interpreta-lo não literalmente.

Meu dilema sempre decorreu da seguinte conclusão a que cheguei: se interpretados literalmente, muitos relatos bíblicos me são inaceitáveis (descabidos), mas, quando eles são interpretados não-literalmente, fico com a nítida impressão de que os que assim os interpretam estão impondo ao texto um sentido que não está nele – estão fazendo eisegese e não exegese… Isso pode ser legítimo em alguns casos, mas como regra é, a meu ver, injustificável. É isso que eu (na linha do Machen) acho que os defensores da teologia da libertação, da teologia feminista, etc. me parecem estar fazendo.

Não sou fundamentalista ou conservador em minhas ideias teológicas – mas tendo a ser conservador em minha hermenêutica – aplique-se ela a que texto for… Sou radicalmente constra as deconstruções e reconstruções do texto dos pós-modernos. Mas não sou contra uma tentativa de recontextualizar a mensagem bíblica nos diversos contextos em que ela é apresentada… Sou, portanto, meio troeltschista. Acho que foi isso que Paulo fez – e todo mundo que veio atrás dele, inclusive os fundamentalistas…

Fico com a impressão de que estou apenas a me repetir… Mas queria que você comentasse essa nova versão do meu ponto de vista.

Um abraço.

Eduardo Chaves

São Paulo, em 7 de Setembro de 2015

Elucubrações Perigosas…

[Este post foi originalmente publicado em outro blog meu: http://liberal.space%5D

Há 15 anos escrevi um artigo com o título “How Far Can a Doctrine Change Without Becoming Something Else?”. Esse artigo, que foi publicado nos Proceedings of the Second Assembly of World Religions [Anais da Segunda Assembléia de Religiões Mundiais], Los Angeles, EUA, 1990), está disponível aqui no blog no URL http://liberalspace.net/2014/05/26/how-far-can-a-doctrine-change-before-becoming-something-else/.

Quase 80 anos antes, em 1923 J. Gresham Machen, na época professor do Seminário Teológico de Princeton, escreveu um livro chamado Christianity and Liberalism em que argumentava que o Liberalismo Teológico (contra o qual ele se batia) tinha ultrapassado o limite (ao qual, muito tempo depois, eu fiz referência): o Liberalismo havia se tornado “something else” — não era mais Cristianismo, era uma outra religião: uma religião imanentista, sem o sobrenatural; secular, sem o sagrado; focada na ética de Jesus, na regra áurea, na visão de que “o céu é um lugar aqui na Terra” e que, portanto, o Reino dos Céus não será nada mais do que a Terra transformada (por nós, naturalmente).

Quando escrevi o artigo em 1990 não havia lido o livro de Machen ainda (embora já houvesse escrito sobre Machen). Hoje, quando já o li e reli, sinto uma semelhança enorme entre o que ele diz e a resposta que tentei dar à pergunta que fiz no título do meu artigo. Foi a consciência de que o “How Far” tem um limite, e que esse limite pode ser ultrapassado, e muitas vezes é, que me fez concluir, por volta de 1970, quando desisti de ser pastor (teria de ser ordenado naquela época), que Bultmann (inter alia: muitos outros com ele) havia ultrapassado esse limite, e que eu poderia até continuar sendo bultmanniano, mas não seria mais cristão… Ergo… devo procurar outra coisa para fazer. Como ser teólogo, em vez de pastor… (embora eu soubesse, da história que escrevi no seminário sobre o movimento Fundamentalista, que teólogos também podem perder o emprego por heresia).

A triste conclusão dessa linha de pensamento é que, ou se é conservador ou ortodoxo, ou, então, rapidamente se deixa de ser cristão para adotar uma “religião secular”, que hoje se manifesta, entre os evangélicos, como “religião de auto-ajuda”, “religião da prosperidade”, etc. No extremo, a “esquerda teológica”, a teologia da libertação et alia deixaram de ser alternativas cristãs para se tornar outras religiões, seculares, políticas, em alguns casos (não todos) revolucionária. O mesmo vale (no meu entender) para teologias feministas, teologias negras, marrons, amarelas, vermelhas, etc.

Ainda bem (para ele) que Machen morreu (cedo) antes de ver que o Liberalismo Teológico contra o qual ele se bateu tão corajosa e valentemente, e perdeu (pois teve de sair da igreja e do Seminário que ele amava — fato que lhe causou uma morte prematura, provavelmente por desgosto), era uma versão muito “light and soft” de algo que hoje se tornou “heavy and hard”.

O que me impediu de continuar liberal foi honestidade intelectual, de um certo tipo: a convicção de que isto não é aquilo, de que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, e que não se deve fazer de conta que uma coisa é a outra.

O que me impediu de me reconhecer fundamentalista ou conservador também foi honestidade intelectual, só que de outro tipo. Minha capacidade de pensar e refletir (aparentemente dada por quem me “projetou” (designed) assim) me impediu de reconhecer que a maior parte do que eles, fundamentalistas e mesmo conservadores, defendiam e continuam a defender era verdade (embora a hermenêutica deles seja mais honesta do que a dos liberais).

Será que há um “tertium quid”? Será que o “tertium quid” está em um Cristianismo não doutrinário? Ou será que isso já é Liberalismo?

Em São Paulo, 17 de Agosto de 2015